segunda-feira, 23 de julho de 2012

O mito da castração na "idade ideal"

Esta semana em São Paulo, participei de 2 mutirões de castração na clinica da Dra.Fernanda Conde, uma das 3 grandes especialistas em controle populacional e tecnica de gancho do país.

Na cidade de São Paulo, a castração se tornou lei e é oferecida gratuitamente para seus habitantes, que podem castrar até 10 animais de uma vez só, após fazerem o cadastro no CCZ e serem encaminhados para uma clinica proximo de sua residência.



 No primeiro mutirão que participei, foram 86 animais atendidos, das 9 às 17hrs. Dentre esses, a grande maioria eram filhotinhos a partir de 2 meses de idade.

machinho à esquerda, femeazinha à direita :)

Muitos anos atrás, quando me iniciei na proteção animal, também era ignorante em relação à castração precoce, pois os unicos veterinarios com quem tinha contato também eram contra e questionei a unica veterinária que realizava esse procedimento na cidade.

Mas com o passar do tempo, estudo e troca de informações com grandes nomes da proteção animal em outros países e no Brasil, vejo que esses foram apenas preconceitos passados pelos professores e que até hoje se repetem na universidade, fazendo com que São Luís mantenha o vergonhoso record de 30 animais semanalmente eutanasiados no CCZ da cidade.

Nos ultimos anos em que ainda realizava doação responsável, consegui doar TODOS os meus filhotes castrados, através de conversas e conscientização com os veterinários responsaveis. Orgulhosamente o Felinos Urbanos conta com uma equipe de veterinários talentosos e esclarecidos que realiza o procedimento não somente para os gatos ferais, mas também para os gatinhos da Cota Social e somos procurados por quem quer doar um filhote responsavelmente.



Por que podemos e devemos castrar filhotes, principalmente aqueles que irão seguir para adoção?
Porque eles serão os numeros do abandono de amanhã.

Uma gata entra no cio precoce aos 4 meses de idade. Mudanças na temperatura e gatos machos ao redor da residencia aceleram o ciclo reprodutivo. O mesmo acontece com um macho, que aos 5 meses já pode acasalar, fugir e ser vitimado nas ruas para reproduzir.



Quem doa um filhote não-castrado está fazendo uma roleta russa com a vida daquele animal.

Pouquissimos são os donos que vão atrás do protetor para informar e pedir a castração na idade adequada ou que ao menos tenham a iniciativa de fazê-lo. E isso é claramente provado pelo numero de animais doados e que tiveram filhotes ou fugiram sob responsabilidade do adotante, antes da "idade ideal" para serem esterilizados. Mesmo os protetores responsáveis podem se ver vitimas de um cio precoce e ao invés de castrar uma gatinha de 5 meses de idade, irá se preparar para receber a ninhada dela.

Infelizmente, o termo de adoção que pede que o adotante devolva o animal para ser castrado, na realidade, não tem poder algum se o dono não quiser. E o protetor não tem como obrigar.

A situação piora quando é um animal "de raça" que certamente será utilizado na criação de fundo de quintal.

De acordo com a SPCA Americana, 60-80% dos adotantes NÃO CUMPRE o combinado de esterilizar o animal doado. Nas SPCAs e Humane Societies de todo o mundo, TODO e QUALQUER animal é castrado antes da doação, justamente querendo evitar que todo o processo de resgate e cuidados seja em vão, quando este cão ou gato irá perpetuar o abandono.

Um dos principais argumentos para não-castração de filhotes são problemas urinários relacionados à castração precoce, mas vários veterinários já lançaram artigos sobre o não-relacionamento destas doenças ( incontinencia, calculos na uretra, etc ) somente à castração. Um gato alimentado com ração de má qualidade, não-castrado, também pode ser vitima da sindrome urologica felina, assim como gatos com mais de 7 anos de idade alimentados exclusivamente com ração seca.




Abaixo, as palavras da Dra. Patrícia Arrais Rodrigues da Silva ( http://www.gatoverde.com.br/02_00.asp?menu_cod=18&menu_cod_pai=0 ) sobre a castração precoce:

"Relativamente muito pouco se sabe com relação aos efeitos dos hormônios sexuais sobre o sistema urinário em cães e gatos.

Porém, sabe-se que os problemas antigamente atribuídos à castração, como aumento da predisposição à obstrução uretral em gatos, ou a incontinência urinária em cadelas, ainda merecem maiores esclarecimentos.

A incidência de obstrução uretral em gatos é a mesma em gatos castrados ou não, embora os mecanismos dessa patologia ainda não tenham sido esclarecidos.

Com relação à incontinência urinária em cadelas, ela pode ocorrer de semanas a anos após a cirurgia de castração, assim como em cadelas inteiras. Vários problemas anatômicos e fisiológicos estão associados ao problema, e não se tem ainda uma causa definida. Se há influência hormonal, não há evidências que sugiram que a castração precoce irá potencializar o problema. "


Grandes Ongs brasileiras como a Adote um Gatinho disponibiliza TODOS os seus animais castrados.

Levando em consideração que essa ong é mantida com os recursos de seus fundadores e doações do publico, por que eles financiariam castração precoce se fosse algo extremamente malefico para os animais?

Canis e gatis responsáveis também somente viabilizam seus filhotes castrados, para proteger a procedencia da linhagem e evitar que caiam nas mãos de aproveitadores. Estamos falando aqui de animais em faixa dos 2 a 5 mil reais. Por que colocar em risco animais tão valiosos?

Abaixo, palavras do Dr.Dr. Edgard Morales Brito, falando da castração precoce e seus beneficios para uma raça e para animais de companhia em geral:

-Em 70% dos casos em que um cão de raça pura do sexo fêminino é vendida para uma pessoa que tenha outras raças para convívio, ocorrem acasalamentos indesejáveis, gerando assim mestiços.
- Evitar que proprietários inexperientes ou sem orientação técnica, façam acasalamentos ao acaso, sem considerar o que é melhor para o desenvolvimento da raça, gerando filhotes no mercado, que fatalmente são comercializados por preços abaixo do justo para a raça, alterando assim o mercado para esta determinada raça, desvalorizando o produto.

- Antes do primeiro cio, onde ainda não há a maturação dos orgãos sexuais femininos, a disfunção hormonal pós castração é praticamente inexistente, evitando assim os efeitos colaterais da castração como obesidade, letargia, etc.
- Evita a Piometra que é uma patologia ligada à uma disfunção hormonal, podendo ocorrer antes mesmo do primeiro cio.
- Evita a Pseudo-ciese (gestação psicológica), que com o passar dos anos acaba sendo um grande indutor de tumor de mamas
- Evita o desconforto na casa dos proprietários que tem machos e fêmeas no mesmo ambiente, que na época de cio ocorre inapetência, choro e mudança comportamental nos animais, incluindo agressividade entre eles.
- Aumenta a longevidade (os cães vivem mais tempo) no caso dos animais castrados."

Para finalizar, deixo as palavras do Dr. Dick Rosebrock, que faz parte do PROGRAMA DE ESTERILIZAÇÃO PRECOCE dos E.U.A, que desde 1984 realiza castração precoce de animais em abrigos e de particulares.

"As pesquisas disponíveis sobre os efeitos físicos e comportamentais de curto e de longo prazo da castração pré-pubescente em cães e gatos demonstram a ausência de qualquer resultado adverso. Com base nestas informações, a American Humane Association (Associação Humanitária Americana) apóia esta prática como uma solução viável para a diminuição da superpopulação de animais de estimação e da tragédia decorrente da morte de muitos deles. A prática da esterilização precoce também é endossada pela American Veterinary Medical Association (Associação Veterinária Americana), pela American Animal Hospital Association (Associação de Clínicas Veterinárias Americana) e pela California Veterinary Medical Association (Associação Veterinária da Califórnia).

Pessoalmente, eu endosso este programa entusiasticamente. Tenho participado ativamente do Programa de Castração Precoce e o realizei em aproximadamente mil animais. Não constatamos nenhum resultado negativo. Muito pelo contrário: os seus donos geralmente consideram estes animais como os melhores que já tiveram!"

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